.comment-link {margin-left:.6em;}

Visões do Abismo

Tuesday, November 30, 2004

Memórias de Um Náufrago: Capítulo XVI - O Dia da Partida.

Minha mente fervia. Precisava encontrar um modo de partir sem que Tereza desconfiasse. Eu nem imaginava que ela tinha outros planos para a minha jangada, e aquela malvada agia da maneira mais dissimulada, fazendo seus preparativos de viagem, que na verdade não me incluíam a não ser num possível afogamento não-acidental. O entusiasmo dela em partir era a única coisa genuína, e chegava a ser comovente. Confesso que em alguns momentos eu pensava em levá-la comigo. Fazer o quê? Sou um sentimental. Além disso, sexo em alto-mar não era má idéia. Mas em seguida me lembrava que aquela mulher sem coração havia me espezinhado, usado, agredido, torturado durante meses... e eu adorava! Comecei a aceitar a idéia de tê-la comigo. Se ela me largasse ainda na praia de chegada, estaria bem. Quem gostaria de viver com uma mulher daquelas para sempre?
Marcamos o dia da partida. Na véspera, acomodei toda a bagagem na jangada, com uma preocupação especial com a água potável e a coleção de colares de conchas de Tereza. Juntei um estoque de camisinhas de látex de palmeira, e me considerei pronto. Voltei para a caverna, para dar boa noite à minha amante, e ela ofereceu-me uma xícara de chá. Aceitei. Trouxe-me um copo grande, cheio até a borda, e parecia ansiosa para que eu bebesse. Tomei uns goles, e como sempre acontecia quando aquela desalmada me tratava bem, fiquei profundamente desconfiado. Pedi uns biscoitos para comer na caminhada de volta, e enquanto ela os pegava, derramei o chá num canto. Vocês não imaginam, ou já imaginam, como fiz bem agindo assim. Peguei os biscoitos, fizemos sexo umas duas ou três vezes para passar tempo, e parti na escuridão.
Fiz bem e muito bem, porque mesmo com uns três golinhos do tal chá eu mal consegui voltar para a aldeia, tamanho era o sono. Aquela bandida me drogara. Era parte de um plano que eu nem imaginava. Juvenal, aquele grande canalha, tornara-se cúmplice de Tereza, e na verdade não estavam ainda amantes porque o pênis do bandido continuava chamuscado e cicatrizava devagar. As feridas sempre arrebentavam, porque mesmo queimado o tarado tinha ereções constantes, e até por uma pancada de vento o bicho se assanhava. Um doente! Ele continuava andando nu, e cada vez que encontrava Tereza o estrago era grande!
- Meu filho, mas o que é isso? Nunca viu não foi?
- Minha filha, você num imagina! O atraso é grande, é grande, é grande!
- Mas você não se acanha não? Sou uma moça!
- Deixe disso que você já viu antes e se num viu num sabe o que é. Chegue aqui, chegue, chegue!
- Mas que queres, homem? Tu achas que tens condição de fazer alguma coisa nesse estado?
- Chegue aqui, esfregue minha orelha com essa folha de bananeira pra passar minha aflição, vá!
E cada vez inventava um ritual diferente. Era um maníaco.
Não sei de quem foi a idéia original, mas Juvenal procurou o Pajé, e disse:
- Pajé, Juvenal com dificuldade grande pra dormir. Juvenal precisa remédio forte pra dar sono.
- Pajé faz remédio, Missifio. Pajé faz relaxante muscular pra Missifio tomar e derramar no pingulim de Missifio, e assim Missifio pára de ficar agoniado o tempo todo e pingulim de Missifio cicatriza em paz.
- Isso eu não quero! E se essa coisa me deixar impotente?
- Primeiramente pra deixar Missifio impotente teria que injetar curare na veia de Missifio, e só assim coisa parava de se mexer, porque cá entre nós, Missifio não é normal! Segundamente, remédio tem efeito de umas doze horas, no máximo, e efeito passa. Missifio num se preocupe.
Assim Juvenal bebeu o tal relaxante muscular pra desmaiar o bilau e ele poder sossegar, e levou o sonífero, que entregou para Tereza. A morena me faria bebê-lo, e quando eu acordasse os dois já estariam longe com minha jangada.
Mesmo não tendo tomado o calmante todo, quando Juvenal saiu eu estava mergulhado no sono. O pilantra teve umas duas horas de vantagem sobre mim, e tudo teria dado certo para os dois canalhas, se não fosse o relaxante muscular do Pajé. O Pajé era mesmo um incompetente. Juvenal acordou não só com o pingulim desmaiado, mas o efeito foi tão forte que toda a musculatura dele estava meio amolecida. As sobrancelhas e as bochechas estavam caídas, e os braços molengões, pendurados. As pernas bambeavam e ele não conseguia levantar o pé direito do chão. Os cantos da boca estavam caídos, e lá se foi Juvenal, arrastando uma perna e babando pelos dois lados dos beiços de cão fila. O ódio que sentiu do Pajé foi grande, e pensou em dar-lhe uma bordunada de desagravo e despedida, mas não conseguia nem levantar a borduna, e desistiu. O Pajé dormia feito uma criança inocente, e Juvenal sentiu mais ódio, mas não podia fazer nada e foi embora. Por meu turno, acordei bem disposto com o sono induzido, mas assustei-me com a hora, pois o sol ia alto. Pressenti que havia algo estranho, e me apressei.
Por seu turno, quando Juvenal chegou à praia, muito atrasado por ter arrastado os pés o caminho todo, Tereza esta possessa, mas mesmo assim levou o maior susto ao ver o infeliz com o estado tal e qual de quem tivesse tido um derrame. Falou, espantada:
- Mas que houve com você, criatura? Teve um derrame, foi? Meu Deus! Tá andando como a múmia daquele filme...
Juvenal não se cabia de ira. Mas não podia explicar porque nem falava direito.
- Diixa pra lá... Diipoiiss euu connttoo... Tummeeiii ummm rimméééddiiooo malldittooo... Tô prejuuudiicaaduuu...
Tereza pendurou o que pôde no pescoço dele, e perguntou:
- Trouxe as pepitas, não trouxe? Diga que trouxe senão te mato!
- Trrooouuuuuxeee...
- Então vamos embora, meu amorzinho!
Quando cheguei ao alto do morro, os dois ao longe eram apenas tracinhos, um correndo para a jangada, e o outro arrastando-se atrás. Não entendi a situação de todo, mas compreendi que havia sido traído, e disparei na carreira.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo XV - Um Perigoso Encontro.

Naquele momento eu não podia imaginar, mas Juvenal havia me seguido, buscando uma oportunidade de vingança contra mim. O canalha presenciou meu encontro com Tereza, e seguiu-nos até a caverna secreta. Esperou que eu saísse, e me observou partir. Então uma grande agitação se apossou do homem. Ele deduzira toda a situação, e instintivamente a visão de uma mulher de verdade, e ainda mais um exemplar tão bem acabado, causara um tremendo impacto sobre o maníaco, um impacto que nem os homens normais, nem os marinheiros em alto-mar, nem os criminosos sexuais nos presídios, nem os compulsivos por sexo no consultórios psicológicos, poderiam imaginar. Em estado de total agitação, ele não conseguia resolver o que fazer, mas um verdadeiro magnetismo o arrastou para a caverna. Entrou cautelosamente, mas rápido, e viu-se dentro do salão maior. Tereza, ajoelhada no chão a um canto, percebeu sua presença, e virou-se dizendo, amorosa como de hábito:
- Esqueceu o quê, seu demente?...
O susto de ver outro homem foi enorme, mas os marmanjos da tribo não assustavam Tereza desde que ela tinha seis anos de idade e aprendera a atirar uma pedra, e assim ela ergueu-se já com aquele velho tacape na mão, que eu conhecia tão bem, e aproximou-se de Juvenal, falando:
- Muito bem, seu tarado, conheço você. Depois de todos esses anos encontrou meu esconderijo, não foi?
Juvenal estava mudo e trêmulo de emoção. Ela parou diante dele, e o infeliz foi tomado de um tremor intenso, um verdadeiro frenesi. Ficou mudo por vários segundos. Por fim só conseguiu murmurar:
- Puxa, dona, como você é tremendamente... gostosa!
Ao ouvir aquilo um frêmito de irritação percorreu Tereza. Ela deu dois muxoxos, balançou a cabeça vigorosamente, e exclamou:
- Você faz idéia de como uma mulher moderna e independente detesta ser chamada de "gostosa"?
E lascou o tacape contra a cabeça de Juvenal.
Juvenal foi ao chão, mas nem sentiu o golpe. Era como se estivesse em transe, com aquela palavra há anos presa na garganta. Olhou novamente para ela, e repetiu:
- Gostosa!
Tereza saiu de si. Gritou: - Aahhhhhhhhhhh! E mandou outra bordunada contra o corpo caído no chão. Juvenal apagou.
Quando acordou estava pendurado, com os braços estendidos para cima e as mãos presas por uma corda. Tereza estava diante dele, olhando-o com um olho bem apertadinho e o outro muito aberto. Um olho verde, grande e mal. Juvenal tinha um pouco de sangue seco na testa, mas no geral estava bem. Falou humildemente:
- Posso te dizer uma coisa?
- Fala! - Disse ela, irritada.
- Porra, como você é... gostosa! - Teresa ficou histérica. Largou o tacape e começou a andar pela caverna, gritando séculos de queixas acumuladas contra todos os homens viventes e já enterrados. Juvenal aproveitou para admirar o corpo dela, indo, vindo e passando, e não escutou uma palavra. Apenas repetia de si para si: - Puxa, mas como é gostosa...!
Ficaram trinta e seis horas, quarenta e oito minutos e dezenove segundos assim. Ela reclamando e ele chamando-a de gostosa, sem interrupção. Por fim cansaram. Ela sentou-se numa pedra e adormeceu. Ele caiu no sono, com os braços dormentes.
Quando Juvenal despertou, Teresa preparava uma corda, em silêncio. Juvenal viu a grossa tira de corda e teve um mal pressentimento. Disse:
- Moça fantasma não só corpo gostosinho... grande pessoa, Juvenal logo vê, e admira beleza interior de moça.
- Sei. Então pára de olhar pra minha bunda enquanto fala, seu retardado.
Droga! Pensou Juvenal, e fez um esforço para erguer os olhos. Disse:
- Moça amiga de Macartúrio. Macartúrio engana moça. Macartúrio um mala. Macartúrio grande cabra safado. Vale menos do que o que o gato do mato enterra. Macartúrio foge em jangada e deixa moça a ver navios. - Achou o trocadilho engraçado e caiu na risada.
Ela retrucou:
- Vê lá se aquele idiota tem competência pra isso. Acho que até banho de banheira ele toma com colete salva-vidas. Além disso ele me ama.
- Ama nada. Ele mau. Ele bandido. Ele foge e deixa moça no “ora veja!”.
- Como você sabe disso, infeliz? Isso é veneno seu.
- Ele jangada pronta, começa três meses atrás. Só conta agora porque moça descobre. Pretendia fugir em segredo.
Tereza ficou pensativa. Realmente aquilo era fazia sentido. Ficou indignada com a ingratidão do amante.
- Vocês homens são todos iguais, só muda número de sapato! E qual o seu plano?
- Juvenal foge com moça. Macartúrio e homens da ilha ficam no cinco-contra-um para sempre.
Tereza refletiu silenciosamente. Achou que não conseguiria fugir sozinha, e por vingança queria deixar o amante para sempre na ilha, sozinho e esquecido de mulher.
- Pois muito bem! Como iremos viver no continente?
- Mim tem coleção de pepitas de ouro escondidas. Juvenal leva e moça leva vidão!
Tereza achou que poderia arriscar com aquele imbecil, enquanto as pepitas não acabassem.
- Pois bem. Conta direitinho como vamos fazer, benzinho.
E Juvenal expôs seu plano.

Monday, November 29, 2004

Memórias de Um Náufrago: Capítulo XIV - Preparativos de Fuga.

Meus amigos, embora não gostasse de Juvenal, apiedei-me da situação dele. Seu bilau estava bastante queimado, o que parecia estranho, porque não seria conseqüência da queda pela ribanceira. Ao notar isso, procuramos investigar, e descobrimos que o órgão sexual do caracol gigante é lubrificado por uma substância que para um ser humano tinha efeito ácido. Assim, Juvenal, além de ter relações sexuais com uma bizarra criatura de Deus, assava o próprio pênis cada vez que o fazia. Ficamos estarrecidos! E quando o interrogamos sobre aquela aberração, o infeliz apenas respondeu:
- Era um queimorzinho até gostoso...
O homem era mesmo um doente. À medida que foi sarando, porém, ele foi ficando cada vez mais inquieto. A incapacidade temporária numa atividade tão vital pra ele o estava matando. De vez em quando sentava-se afastado dos outros, e chorava:
- Ah, Fanzinha, que saudade!... Você foi a mais quente que eu já encontrei...
E soluçava como um bebê.
Sua ira contra mim se acendeu com toda força. Ele passava repelente de mosquito no corpo e ficava a andar, totalmente despido, pra que as roupas não ferissem seu membro chamuscado. Estou eu ocupado lubrificando o eixo do sol e jogando paciência, e lá vem aquele infeliz cabeçudo e nu. Pára diante de mim e diz:
- Macartúrio, desgraçado, vou te pegar. Tem alguma coisa errada contigo, e vou descobrir.
- Sai de mim, infeliz!
- Tu não perdes por esperar, oh, miserável! Tua batata tá assando!
- O que tá assando é tua salsichinha, num é não?
- Me respeite, cachorro! Por tua causa me envolvi num relacionamento amoroso desastroso e sem esperança com uma criatura que destruiu meu coração. Estou desesperado!
- Mas criatura, tu num vês o desatino do que estás dizendo? Aquilo é um caracol gigante! Estás falando em relacionamento?
- Não zombe, infeliz! Você acha que ela não tem sentimento só porque é um caracol de um metro e setenta e deixa um rastro brilhante por onde passa? Macartúrio desgraçado, você vai me pagar!
E se foi. Temendo um gesto desesperado de vingança, resolvi acelerar minha partida. No dia seguinte, acordei bem cedo e fui até onde estava minha jangada. Estava distraído costurando o último pedaço de tecido na vela que improvisara, quando ouvi passos atrás de mim, e um grito:
- Ah! o que é isso?
Virei-me de chofre, e era Tereza, com as mãos nos quadris e cara de quem descobriu que eu esquecera de puxar a descarga. Sorri como um cretino, e disse a inacreditável frase:
- Oi, meu amor. Você por aqui?
- Pois é! Quem havia de dizer?
E aproximou-se. Rodeou lentamente a jangada, uma, duas vezes, e por fim disse:
- Até que não está mal... Melhor que as que as mulheres fujonas fizeram. Quando você pretendia me dizer que estava pensando em partir? – E havia suspeita e ameaça no seu olhar inquisidor.
- Queria fazer surpresa, meu amor! Ia contar no nosso aniversário!
- Sei... - Que ela fez, tornando a olhar a embarcação.
- Precisamos nos preparar pra partir. Juntar alguma comida, água... Não sabemos quanto tempo ficaremos no mar, até algum navio nos achar. Enfim, a liberdade!
Fiquei preocupado. Eu não tencionava fugir com aquela louca. Além do que, se eu a aborrecesse ela seria capaz de me jogar na água em alto-mar. Como eu faria agora, que a jangada estava pronta, para fugir sem ela? Mas algo pior ainda acontecera sem que eu soubesse. Escondido ao longe, Juvenal observava tudo, e nos seguiu até a caverna de Tereza.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo XIII - O Fugitivo.

Passei a me dedicar com afinco à tarefa de construir minha jangada. Assim que ela estivesse pronta partiria daquela ilha esquecida de Deus e dos homens. A dedicação à tarefa tomou minha atenção de tal modo que minha amante acabou percebendo. Estávamos os dois uma noite na caverna. Eu esperava reunir algumas forças para voltar à aldeia, enquanto pensava como improvisar uma vela para a embarcação, e quanta água precisaria levar para a viagem, quando ela, após me olhar profunda e investigativamente por uns minutos, perguntou, manhosa:
- Que foi, benzinho? Você anda tão pensativo!
- Nada não... respondi distraidamente.
- Tenho uma surpresa pra você!
E levantou-se num salto. Puxei alguma coisa pra proteger a cabeça e esperei. Voltou com uma tigela de doce de coco!
- Fiz pra você, meu querido!
Foi bom eu já estar deitado, senão teria caído pra trás.
- Você fez isso pra mim?!?!
- Pois é! Quem havia de dizer?
E me serviu! Eu estava bobo!
- Você tá precisando de alguma coisa? - perguntei, desconfiado. - Apareceu outro escorpião que você quer que eu mate? Tem alguma pedra pra rolar de lugar? Quer que eu ponha a mão na água pra ver se já ferveu?
- Não, meu amor, só quero te agradar. Meu amorzinho merece...
E aconchegou-se toda no meu peito, ronronando como uma gatinha!
- Sabe que você nunca perguntou meu nome? Você é tão frio comigo... - Pasmem! Aquela não podia ser a mesma mulher!
- Mas eu perguntei uma vez e você perguntou pra que eu queria saber! Não lembra?
- Eu tava brincando. Você é todo sensível!
- Mas você mandou eu calar a boca!
- Era só pra testar se você tava realmente interessado ou perguntou por perguntar.
- Ahnnn... - fiz eu, aturdido. - Mas então, como é seu nomezinho?
- É Tereza. - Disse-me ela com um terno sorriso.
- Que lindo, como Tereza da praia.
- Pois é! - Tornou ela, e começou a cantarolar a canção onde dois idiotas discutem por uma mulher que sempre me pareceu que naquela hora deveria estar com um terceiro.
- Você me ama? - inquiriu ela.
- Claro! Sou doido por você.
- Fico feliz, meu amor. Você sabe que eu nunca aprendi a lidar com a rejeição? Ultimamente tenho notado você tão distante, distraído... - e me olhou com aquele ar de psicopata que ela tinha às vezes. Eu já via meu bilau cortado fora e roído pelos siris!
- Impressão sua, minha fofinha. - e me escorreu um suor frio pela espinha.
De volta à aldeia, as coisas pareciam agitadas. Encontrei Juvenal estendido sobre um colchão de palha, gemendo de dor. A tribo toda em volta. O Pajé tentava fazê-lo beber um chá medicinal de capim-santo com coca-cola. Acudi, afobado:
- Que diabo foi isso, meu povo?
Ao me ver Juvenal tentou erguer-se para me atacar, mas a dor o conteve. Ele apenas gemeu:
-Aiiiiiiiiii! Macartúrio maldito! Macartúrio miserável! Macartúrio mentiroso filho de uma...
- Mas que fiz eu, desgraçado? Por que me xingas tanto, infeliz das costas ocas?
O Pajé explicou:
- Juvenal escorrega e se lasca todo por causa de Macartúrio! Macartúrio engana Juvenal! Macartúrio num vale o que gato do mato enterra, mesmo!
- Mas eu nem vi essa besta hoje!
- Tribo nota Juvenal saindo muito, furtivo, carregando flores, roubando comida pra alguém, levando presentinhos... Pajé desconfia de Juvenal ter encontrado mulher fantasma e fazer segredo. Tribo segue Juvenal!
- Mas e daí?
- Tribo flagra Juvenal praticando ato sexual libertinoso e muito feio com criatura da natureza! Juvenal leva susto enorme, cai da ribanceira e se arrebenta todo em moita de urtiga. Bilau de Juvenal inutilizado, Missifio! Perda total! Pajé não põe remédio que não vai botar a mão nos documentos de ninguém.
- Ohhh! - Fiz eu, com uma careta.
- Pois é! Juvenal pegou em merda, Missifio. - Nisso Juvenal olhou pra mim, com fúria.
- Mas o pior é que não era uma mulher, seu miserável, era um caracol gigante, e você me enganou. Estive iludido todo esse tempo! - e virando o rosto pro lado, começou a soluçar que dava até pena.
- Ah, Fanzinha, que desilusão..! - E desatou a chorar.
- Fanzinha? - Perguntei eu. O Pajé me puxou o braço e cochichou: - É como ele chamava o caracol. Respeite a dor do semelhante, Missifio.
- Ahh, siimmm...
Fomos todos saindo da caverna, constrangidos. Juvenal acabou adormecendo, e entre um soluço e outro, ainda sussurrava:
- Ahhh, Fanzinha... você era caladona, mas a gente era feliz...

Memórias de Um Náufrago: Capítulo XII - Um Coração Partido.

Meus amigos, parafraseando Shakespeare, eu vos pergunto: "O que há numa bunda?" Não sejam escatológicos! Por estranha que pareça a questão, é oportuna. Juvenal era obcecado por aquela parte da anatomia feminina. Agora olhava para ela e pensava ver um tronco de coqueiro todo deformado. Oh ironia! Fiquei realmente transtornado com aquela situação, e comecei a pensar nas minhas prioridades neste mundo. Estava ali há mais de seis meses, esquecido da vida, e tudo porque tinha aquela mulher, ao qual estava preso pelo desejo. Aquela mulher que me escravizava, me espezinhava, me tiranizava, vivia pedindo móveis novos e não lavava minha roupa nem cozinhava nada que prestasse. Caí em mim que a vida não era só cair dentro dela, e resolvi que aquela estória já tinha dado tudo que tinha pra dar. Achei que a idéia da jangada não era nada má, e resolvi me mandar daquela ilha esquecida por Deus. Aparentemente Juvenal e o Pajé não desconfiaram de nada, e me senti à vontade para recolher alguns troncos, juntar alguns rolos de corda, e iniciar pra valer a preparação de uma embarcação que me levasse para longe de minha prisão. Além do que esta estória precisava acabar, não é? Numa noite em que eu roia uma perna de caranguejo, cozida com carinho por minha doce fantasma, tive um rompante de romantismo e perguntei a ela:
- Meu amor, o que você acharia de partir daqui comigo? - e minha voz era lânguida.
- Pra onde, seu abobado? Pra morar naquela aldeia com aqueles retardados tarados? Eu ia morrer de tédio. Você é mesmo tonto...
- Não, minha jóia rara, me refiro a partir desta ilha. A ir embora daqui para sempre.
Os olhos dela se acenderam.
- Ah, isso seria maravilhoso!
Senti meu coração trepidar de alegria. Ela levantou num pulo, correu até uma pedra, e retirou uns embrulhos de trás dela, que eu nunca tinha visto. Trouxe-os, e era uma pilha de revistas femininas meio velhas.
- Marcos Pasquim, Fábio Assunção, Luciano Szafir... Que homens lindos, maravilhosos, uns gatos! Imagina chegar ao continente! Cidades cheias de homens fantásticos, meu Deus!
E caiu para trás, rindo de contentamento. Ouvi um barulho de alguma coisa se estilhaçando e até me assustei, mas em seguida me tranqüilizei, vendo que era apenas meu coração.
- Mas meu amor, pensei que nós dois...
- Nós dois o quê? Fossemos ficar juntos para sempre? Você precisa reconhecer que no momento minhas opções são meio limitadas. - e deu uma gargalhada que dava gosto de se ouvir. Prosseguiu: - Você sabe, eu fui uma das que promoveu com mais entusiasmo a evacuação desta ilha. Todas as mulheres resolveram partir, porque estes idiotas nunca saiam para jantar fora, conversavam somente sobre trabalho, dançavam muito mal e só transavam uma vez por semana, depois do Fantástico. Mesmo assim quando não passava Big Brother Brasil. Só que por causa da pressa de fugir escolhemos um dia de maré alta, e acabei caindo da balsa que me levava. As ondas me trouxeram de volta, e as outras não conseguiram me resgatar. Fiquei só, durante anos, me divertindo em assombrar esses infelizes. A praga das mulheres da ilha surtiu efeito, e eles começaram a esquecer como é uma mulher, nada mais justo, já que nunca souberam tratá-las direito mesmo. Muitas vezes me diverti ficando parada no meio da estrada, segurando umas folhas de palmeira, e eles olhavam pra mim e pensavam que eu era um coqueiro-anão. Você me interessou porque era novo no lugar e tinha uma bundinha legal, mas isto não é casamento. Um casamento é feito de coisas muito mais sérias, como plano de saúde e cartão de crédito.
Naquela noite saí da caverna disposto a construir a jangada mais forte que pudesse, fugir ou morrer tentando, e fazer a única coisa possível a um homem quase apaixonado, naquelas circunstâncias: mandar pro inferno aquela desalmada.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo XI - O Segredo Ameaçado.

Eu caminhava na escuridão, e já estava próximo da caverna secreta, quando ouvi um ruído abafado às minhas costas, como um gemido. Olhei por cima do ombro por puro reflexo, e ainda tive tempo de ver uma cabeça se abaixando rapidamente atrás de uma moita. Não teria notado nada se o Pajé não andasse sempre com um boné do IBAMA com três penas de galinha espetadas nele, e foram as penas do Pajé que eu vi sumir entre as folhagens. O Pajé era mesmo uma besta. Ainda por cima deve ter caído, porque ouvi alguma coisa rolando, e um "Ui...!" abafado a vários metros de distância. Virei-me para a frente, para não dar a impressão de ter notado algo, e segui meu caminho, muito preocupado. "E agora?", pensei. Estávamos muito próximos do esconderijo, eu já descera a colina e nem tinha como voltar. Havia apenas uma faixa de praia à minha frente. Que fazer? Tive uma idéia. Apressei o passo discretamente, para ganhar tempo, e entrei quase casualmente na gruta.
Ao penetrar no salão natural escavado pelo tempo e pela água na rocha, lá estava minha tirana, e com cara de nenhum amigo. "Que faz aqui, seu estúpido? Esqueceu que estou menstruada?"
- Ora, meu amor, então não posso sentir saudade de você?
- Se acha que vou lavar cuecas sujas suas, meu amor, vou passar um tempo sem bater na sua cabeça até você sarar. Trate de atravessar o oceano a nado e vá atrás da sua mãezinha.
- Não é isso, minha coisa linda, vim te ver. Mas precisamos agir rápido, porque acho que me seguiram.
- O quê?!
E ela ficou tão furiosa que pareceu-me ver raios saindo dos seus olhinhos verdes.
- Sabe, eu estava certa, você não é igual aos outros retardados não! O problema é que você é pior! E me atirou uma pedra, a coisa que estava mais perto da sua delicada mãozinha.
- Tenha calma, meu amor!
- Calma é o escambau! Vão descobrir meu esconderijo por sua causa, seu jumento!
E me atirou outro objeto, mas foi bom, porque como não havia nada perto ela me atirou a camiseta que vestia.
- Pare! Pare com isso! Precisamos agir rápido! Faça o que vou dizer e não discuta pelo menos uma vez na vida! - e pus em prática meu plano.
Daí a alguns minutos o Pajé entrou na caverna, esbaforido. Não precisei fingir surpresa, porque Juvenal pulou logo atrás dele, com aquele olhar de louco, e já com as calças pelos joelhos, gritando: - Cadê ela, cadê ela, diga! Vem cá meu bem, vem cá neném! Vem cá porra!
Gritei, indignado:
- Mas o que é isso? Recomponha-se, seu energúmeno!
- Mas eu quero é recompor mesmo, recompor e tirar, tirar e recompor, até...
- Não! Quero dizer vá-se embora! Vão os dois!
Ele não me deu atenção e ficou olhando em redor. Eu estava sentado, não no chão, mas justamente nas costas de minha querida, deitada entre alguns troncos que pus no chão, lado a lado. Pajé perguntou-me enquanto o outro fuçava tudo:
- Que faz nessa lonjura, missifio?
- Pois é, Pajé, antes que fique sem mais juízo nenhum, feito esse aí, vou partir. Faço uma jangada. Não queria dizer pros companheiros pra não parecer ingrato.
Pajé olhou diretamente para as toras. Eu forrara um pedaço de couro sobre elas, cobrindo parcialmente minha amada, e justamente sua magnífica bunda ficara descoberta. Mas como eu calculara, por causa da maldição do esquecimento os infelizes não reconheceram aqueles montes fendidos no meio como parte da anatomia feminina. O Pajé protestou:
- Ora, mas se é isso Missifio é mesmo ingrato. Nós lhe tratamos tão bem e ocê quer nos deixar?
Juvenal se chegou e também ficou olhando as toras. - Você é mesmo um filho duma égua muito burro. Aqui é justamente o pior lugar pra tentar sair da ilha. O mar bate muito violento. E pareceu pregar os olhos na bunda de minha adorada, como se uma lembrança primitiva se acendesse em sua mente!
- Justamente, mas como aqui é mais reservado, preferi trabalhar neste lugar. Deixei os troncos aqui pra não apodrecerem.
Meu coração quase sai pela boca, porque ainda olhando para as nádegas de minha florzinha, Juvenal abaixou-se, pegou um galho no chão e, imaginem como fiquei suando frio, começou a espetar as bochechas do divino bumbum! Olhei para a cabeça coberta de minha fantasminha, e ela virou o rosto para mim e fuzilou baixinho: "Que se dane o segredo! Se esse doido não parar de cutucar minha bunda agora mesmo vou dar uma porrada nele!" Cobri rapidamente a cabeça dela, e Juvenal, após mais dois cutucões, disse: "Além de tudo você é um burro. Olha como esse tronco está fofo e inchado. Essa madeira deve estar podre."
Nesse momento dei um pulo para a frente, fiquei de pé, e disse: "Bem, já que vocês estão aqui não vou mais trabalhar hoje. Vamos embora!"
Juvenal disse: "Será que isso pelo menos agüenta o teu peso?" E pulou bem nas costas de minha adorada! Só tive tempo de ver os olhos dela se esbugalharem e ouviu-se aquele gemido: Uuhhhh...
- Ih! Tá vendo? A madeira tá fofa e assoviando! Isso é a umidade. Tá podre! Vamos por no fogo pra ressecar um pouco!
- Não precisa! Obrigado por me avisar! Vou trocar essa amanhã!
E arrastei os dois para fora antes que pusessem fogo na coitadinha.

Wednesday, November 17, 2004

Memórias de Um Náufrago: Capítulo X - A Suspeita.

Foi assim que iniciou-se uma relação de amor e ódio, não necessariamente nessa ordem. Fantasma ou não, aquela mulher me tratava como se eu fosse uma coisa, meus amigos, um objeto. Ela simplesmente me catava, me usava e me despachava. Uma maravilha! E se eu tomasse a iniciativa de procurá-la não era certo que seria bem recebido, e a volta da caverna era difícil. Às vezes o lugar estava simplesmente vazio, como se ninguém o habitasse nem o houvesse habitado nunca. Eu voltava para a aldeia então, com calafrios de terror. Às vezes ela me dizia que não estava a fim, alegava dor de cabeça, me acusava de não vê-la como pessoa! Mas o mais humilhante era quando eu queria discutir a relação, e ela dizia: "Quer discutir a relação? Você é meio gay, num é não?" Ou pior ainda: "Que relação? Hoje não fizemos nada ainda." Era uma bandida. Eu vivia com um terror constante de falhar, porque ela me punia por qualquer frustração que sentisse, e o pior é que com o tempo comecei a encarar isso como parte do nosso ritual particular...
Passaram-se, sei lá, uns seis meses assim. A vida era boa. Os nativos tinham se convencido de que a mulher misteriosa não era de carne e osso, e como a falta de mulheres não desenvolvia neles nenhum gosto homossexual, dedicavam-se aos mais variados passatempos para entreter a falta de sexo. Nem todos se masturbavam, porque tinham medo de ter orgasmo pensando em ferros de passar. Às vezes eles se reuniam à noite, e eu passava horas descrevendo para o grupo a anatomia feminina. Os infelizes ficavam tão agradecidos que me tornei bastante prestigiado. Fui imprudente, porém, porque duas pessoas notaram que eu não sucumbia à maldição do esquecimento, e desconfiaram da razão. Eram eles o pajé e Juvenal. Para despistar às vezes eu descrevia minha antiga vizinha de baixo, que era lésbica, mais bigoduda do que eu, e sargento da Polícia Militar, ou variava mais ainda, e mais de uma vez fiz a tribo inteira se masturbar pensando em vacas holandesas, geladeiras frost free e torres de alta tensão, enganados. Meu amigo Maúr, lamentavelmente, também sucumbira à maldição, e era triste vê-lo lembrar de sua saudosa esposa e descrevê-la como uma velha Parati que ele tinha, confundido. "Ah quando ela passava aqueles limpadores de pára-brisa lindos na minha cara...!" E desatava a chorar. Era triste. Eu não deixava de imaginar como deviam ser os tais limpadores.
Juvenal esquecera como as mulheres eram mas não se rendia. Passava tanto tempo com a mão na água gelada do riacho que já andava tremendo-se todo, e seus lábios estavam sempre roxos. Por causa da água fria ele já escapara de uma gangrena no pingulim, mas insistia. O pajé ficara obcecado por inventar uma cura para a maldição, mas o infeliz só conseguia fazer todo mundo sofrer dores de barriga coletivas. Certa feita, fez uma beberagem tão miserável que os pelos pubianos de todos caíram, e a partir desse dia passaram a se chamar Tribo dos Bilaus Carecas. O fracasso o deixava maluco, mas o homem não desistia. Um dia eu estava descansando, esperando a hora de visitar minha torturadora, quando os dois aproximaram-se de mim, ressabiados. Esperei, sonso, e o pajé falou:
- E aí, Missifio, como lhe vai?
- Assim, assim. Em casa todos bons?
- Vamos levando com fé.
- Diga que mandei lembrança.
- Agradecido, conhecido. - e ficamos todos calados, olhando as unhas das mãos. O pajé continuou:
- Missifio anda pálido, com umas olheiras de dar medo. Quer um chazinho? Talvez Missifio esteja com verme.
- Ora, que gentileza. Outro dia tomamos.
- Apareça!
- Levo a família?
- Ora, fique à vontade! Fazemos um churrasco!
- Eu levo a cerveja!
Juvenal teve um gesto contido de impaciência. Pajé prosseguiu:
- Missifio mora na ilha tem o quê? Seis, sete meses?
- Por aí. Pra que contar?
- Pajé nota que Missifio ainda lembra de mulher apesar da maldição. Como pode?
- Aqui entre nós, pra não frustrar os outros, eu uso muito a imaginação. Invento!
- Mas Missifio é bem convincente...
- Brigado!
- Ocê merece!
Aí Juvenal estourou. Pulou em cima de mim, feito louco!
- Deixe de enrolar, seu safado! Você a achou, não foi? Confesse! Confesse! Confesse!
O homem estava histérico! Começou a me estrangular, e eu mal respirava. O pajé o tirou de cima de mim e o arrastou, mas na distância eu ainda ouvia seus gritos. "Egoísta! Egoísta! Quer só pra você, é? Eu nem tenho mais digitais, tô com as mãos cheias de calos! Tô quase com gangrena! Você tem que dividir! Você tem que dividir..." Fiquei recuperando o fôlego, mas não levei o descontrole de Juvenal a sério. Foi um grande erro, e naquela noite, quando saí para meu encontro secreto, vultos me seguiram na escuridão.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo IX - Encontrei-a! E Agora, Como Fugir Dela?

Pela manhã juntei as minhas roupas e um pouquinho de energia que ainda tinha e fui-me dali, com as pernas tremendo, mas feliz, eu achava. Não encontrei o menor sinal de minha fantasminha, o que me fez voltar a questionar se ela não era de fato um ser de outro mundo. Estava meio desconcertado com a falta de jeito da situação toda. De volta à tribo, havia poucos nativos presentes. Explicaram-me que estavam cuidando das tarefas básicas enquanto os outros procuravam a mulher fantasma. A quem perguntou, eu disse que fora tão longe na busca que resolvera dormir do outro lado da ilha. Ninguém desconfiou de minhas olheiras nem do tremor ou da palidez, e passei o resto do dia dormindo para recuperar as energias. Quando acordei era noite alta, o céu estava coalhado de estrelas. Continuei deitado, com as mãos cruzadas na nuca, e estava gostoso ficar assim sem pensar em nada. Foi um grande susto quando senti um cutucão em minha perna, e susto maior ainda quando a vi, e lá estava ela ao meu lado, como saída do nada, em plena aldeia. Ela fez sinal de silêncio, com aquele lindo indicador erguido, e levantando-se, fez-me sinal para acompanhá-la. Fui como um autômato. Caminhamos para fora da aldeia, entre os nativos exaustos e adormecidos, Só Juvenal tinha um sono inquieto, e falava: "Isso, assim, agora pegue esse pote de manteiga dinamarquesa, isso, traga a bezerrinha pra cá..."
Seguimos a trilha secreta na noite enluarada. Ela indo à frente, apenas olhando de vez em quando por cima do ombro. Segura e confiante de que eu ia após o seu corpo de sereia. Eu andando como se estivesse hipnotizado. Fomos horas assim, até chegar à caverna. Dessa vez havia uma claridade que enchia tudo, permitindo enxergar com nitidez. Ela havia preparado um lençol no chão, à guisa de cama, e sem qualquer preâmbulo nem uma única palavra mandou-me deitar lá. Só então tentei alguma reação:
- Olha, precisamos conversar, quero saber quem é você, o que faz aqui...
- E eu quero que você fique peladinho, querido. Vamos, tire a roupa! - ordenou, mas sua voz era tranqüila e ela sorria de um modo que me irritou.
- Espera aí, não é que eu não queira, pelo contrário, você é linda, é uma maravilha, mas...
- Mas o que, meu coraçãozinho dos outros?...
E me empurrou. Caí de costas sobre o fino colchão, e ela me despiu da cintura pra baixo. Eu estava excitado e contrariado. Depois ela começou a se despir também, o que me deixou contrariado e excitado. Mas algo em mim se rebelou. Eu era o macho ali, e aquela situação estava decididamente fora do meu controle!
- Olha, não é assim, primeiro vamos...
- Tenha uma ereção. - o tom foi até casual, displicente e seco. Mas bastante imperativo.
- O quê?
- Tenha uma ereção, você é surdo?
- Peraí! E se eu estiver com dor de cabeça? Você acha que eu tenho algum botão que você aperta e...
- Num entendeu ainda não? Tenha uma ereção! Agora!!!! - E ela pela primeira vez se exaltou. Foi então que me transtornei de vez, porque senti um puta medo! Na escuridão pareceu que os olhos dela se acenderam e seu cabelo se eriçou! Mas meu orgulho estava encolhido junto com meu pênis, e vi que precisava me impor:
- Pois num é assim não, rapaz! Sem um papo, sem uma preparação...
- Como é? - E ela deu uma risada que ressoou pela caverna. – Preparação? Meu filho, isto é uma transa, não é vestibular não. Que porra de conversa mole é essa de preparação? Aliás, falando em "mole"... - e desatou a rir. Fiquei vexado como uma adolescente de treze anos. Ou pior ainda, UM adolescente. Ela andou até um canto da caverna e voltou com um porrete que eu já conhecia, bem firme numa mão, e um pote de margarina na outra.
- Meu amor, você não entendeu. Eu te trouxe aqui pra gente transar, isto não é casamento não. E eu te digo com toda certeza: Um de nós dois vai sair comido daqui hoje, eu garanto! - E o tom dela, meus amigos, não admitia dúvidas. Não posso continuar, porque fiz um juramento eterno: Além de meu psicólogo, ninguém jamais saberá o que aconteceu naquela noite.

Monday, November 15, 2004

Memórias de Um Náufrago: Capítulo VIII - Surge a Mulher Fantasma.

Quando acordei, minha cabeça doendo como o diabo era o sinal de que eu ainda estava vivo. Abri os olhos devagar, e a maravilhosa visão de uma calcinha de lingerie preta, meio surrada é verdade, pendurada diante de mim num varal improvisado, trouxe-me de volta ao estado de plena vigília. Concentrei-me em apresentadores de programas de auditório e ex-ministros da economia, e me acalmei. Estava deitado no chão, e alguém colocara minha cabeça sobre um travesseiro improvisado. Do chão deslizei os olhos pelo recinto, e então eu a vi. Era ela em éter e ectoplasma.
Sentada num banquinho de pedra. Olhando-me com olhos que faíscavam na penumbra e estavam fixos em mim. Levantou-se, e, Deus! Era linda! Nesse momento eu ainda não sabia se ela existia ou não, se era deste ou de outro mundo. Caminhou com passos lentos, porém seguros, e parou a um palmo ou dois dos meus pés. Sentei-me devagar para não assustá-la como antes, mas desta vez ela nem piscou. Balbuciei:
- Mim amigo, amigo...
Ela apenas fez um pequeno 'sim' com a cabeça, sem dizer um isto. Continuei:
- Mim amigo... Mim ammiiiigo... Mim homem... mim forte e poderoso porém gentil...
Sem saber o que dizia, tomei-me pelo meu próprio entusiasmo e excitação.
- Mim amigo... Mim bom... Mim bilau grande, bilau poderoosooo... Mim tesão... Mim faz feira... Você cozinha, lava, passa e cuida dos meninos...
Depois houve um momento mais de silêncio. Ela abriu a boquinha carnuda num gesto que pareceu durar uma eternidade, e disse com uma voz que parecia tocar minha pele como seda:
- Eu bati com muita força na sua cabeça ou você sempre foi assim retardado?
Realmente compreendam que eu não esperava aquela atitude. Antes que eu pensasse em qualquer reação, ela ergueu um maravilhoso dedinho indicador no ar, e inclinando-se delicadamente para a frente, ordenou como uma mestra firme porém magnânima:
- Repita comigo, seu bobo. - e esboçou um ligeiro sorriso. Vi o sorriso indiretamente, porque percebi que ela se inclinara para mostrar um espetacular decote, e meus olhos prenderam-se naqueles seios como por uma força magnética, sinal inequívoco pelo qual uma mulher minimamente experiente sabe que tem um pobre infeliz nas mãos. Totalmente apatetado respondi "sim" com uma voz de relógio cuco. Ela continuou:
- Diga:Mim idiota, você gênio.
- Mim idiota, você gênio.
- Mim carrega compras, você cartão de crédito.
- Mim carrega compras, você cartão de crédito.
- Mim espera, você orgasmo múltiplo.
- Mim espera, você orgasmo múltiplo.
- Mim ejacula antes da hora e pula do penhasco com pedregulho amarrado no sim-sinhô.
- Mim ejacula antes da hora e pula do penhasco com pedregulho amarrado no sim-sinhô.
E, meus amigos, Deus existe e posso dar testemunho, porque em seguida ela tirou toda a pouca roupa, e sentou-se sobre mim, fazendo-se senhora de meu membro viril, que na verdade havia se apresentado uma meia hora antes para o trabalho.
Nas primeiras duas horas eu nem pensei coisa nenhuma, porque não precisava. Nas duas horas seguintes me diverti bastante. Mas após oito horas, que posso dizer? Eu estava cansado, porra!
Passadas 10 horas meu bilau estava rouco e mal dava um soprinho. Ela não estava nem aí. Depois de realizar-se pela enésima vez, jogou-se displicentemente ao meu lado. Juntando as forças restantes virei o pescoço, e olhei com ternura aquela face esculpida por anjos do céu.
- Me responda só uma coisa, meu amor... - eu mal consegui completar a frase. Ela respondeu impaciente:
- O quê? Fala logo! - E jogou aqueles cabelos lindos para trás. Negros como noite sem luar. Ondulados como mar de tempestade.
- Você existe de verdade? - suspirei. Ela me olhou na alma com aqueles olhos verdes de perdição, antes de gemer:
- É claro que não, seu imbecil.
E começou tudo de novo.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo VII - Onde Damos Uma Dose de Sexo e Violência.

Não me perguntem como, seus maníacos! Não me forcem a relembrar daquelas imagens! O fato é que Juvenal saciava seus instintos com o pobre caracol. Era um atraso grande, o infeliz não fazia sexo em três dimensões havia anos. Anos! Isso mesmo! Pobre caracol... Vocês não fazem idéia. Não suportando mais os gritos de prazer do ensandecido Juvenal, corri para longe. Dobrei à direita em uma moita e dou de cara com quem?

Engano de vocês... Era o miserável do Pajé.
- E aí, Missifio? Como lhe vai?
- Oi, Pajé.Tudo em paz. E a família, em casa todos bons?
- Assim, assim, Missifio. Como Deus consente. Que faz por estas bandas, Missifio?
- Pois não é? Passeando...
- Diz que é bom o exercício aeróbico...
- Pois então! Li sobre isso na Seleções.
- Viu a reportagem do Fantástico?
- Perdi!
- Mas que pena! E então, já encontrou?
- o quê?
- O que Missifio tá percurando, orelssa...
- Não sei, que mesmo que eu procuro?
- Ora, não me recordo!
- Pois se achar então não mexa.
- Prometo que não bulo.
E dito isso nos despedimos. Fui até o ponto mais alto da ilha, e de lá vi os nativos, sozinhos ou em pequenos grupos, procurando freneticamente a mulher fantasma. De lá do alto percebi uma descida íngreme, que parecia terminar num abismo de rocha. Achei que não havia nada lá além de uma tremenda queda, mas mesmo assim me aproximei. Qual não foi minha surpresa ao constatar, chegando ao extremo, que havia uma pequena trilha pela qual se podia descer. Fui caminhando pelo estreito caminho, o que demorou um tanto. Por fim cheguei a uma praia totalmente deserta. Notava-se que era uma área nunca visitada pela tribo. O vento trazia o mar em ondas bem violentas, e uma jangada teria extrema dificuldade para partir dali. Fui em frente, e passando por uma reentrância da rocha, percebi uma... Caverna! Será que eu ia entrar na gruta da mulher fantasma? Não me xingue. O trocadilho é por conta da sua cabeça suja. Com o coração aos pulos, aproximei-me sorrateiramente. Saí da luz do dia e avancei por um corredor de pedra. Após uns dois metros, cheguei a um salão escavado pela natureza no interior da montanha. Ainda estava acostumando meus olhos à claridade reduzida, quando um violento golpe na cabeça lançou-me na escuridão total.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo VI - Daqui ou D’além, Vem Cá Meu Bem!

Todo mundo acordou uns dois palmos mais alto no dia seguinte à pajelança frustrada, inclusive eu. Fiquei muito espantado, até que um dos nativos me explicou que estavam todos compridos de desapontamento. Depois passava. Satisfeito com a explicação, fui tomar café. Na ilha havia uma máquina automática dessas da Nescafé, e todas as opções eram gratuitas. Muito legal! O pajé estava todo ressabiado por causa do fracasso, e evitava conversa. Sentei-me sobre um tronco, e ele aproximou-se, desconfiado:
- Infelizmente falhamos, missifio... Deve ter sido a tinta sagrada...
- Missifio uma porra, pajé. Tu ficas falando essa estória de "Missifio" com esse sotaque de Campina Grande, e vem tirar onda de feiticeiro. Põe um véu na cara e um fio dental pra ver se lembra a Feiticeira, que é mais negócio!
- Epppaaa! Não é por aí não, Missifio! Sou macho! Facão! Mão-única entendeu?
- É, tudo bem, me desculpe. Tô exaltado.
- Você está é arretado. Tome aqui mais um café com leite ali da máquina.
E me estendeu um copo que já tinha na mão. Achei o gosto esquisito, mas sabem como são essas máquinas... Pensei que fosse normal. Normal o escambau, porque mal terminei de beber e me bateu uma zonzeira. O pajé olhando engraçado pra mim. Só então me deu o estalo:
- Pajé, você me dopou?
O Pajé balançou a cabeça, envergonhado, mas convicto:
- Desculpe, Missifio, mas sabe como é. Você é recém-chegado. Por causa da maldição do esquecimento tem gente aqui que não sabe mais a diferença entre uma mulher e um fusquinha 74. Sua memória tá muito fresquinha ainda e você leva vantagem demais. Agora Pajé te bota pra dormir e assim quando você acordar tribo já vai ter começado busca. Assim negócio fica mais justo.
- Pajé, só posso te dizer uma coisa, não me leve a mal...
- Diga, Missifio! O que é?
- Você é um grande filho de uma... - E desmaiei. Acordei com o sol já alto e nem viva alma. Haviam largado tudo e partido na busca à mulher fantasma, morta ou morta. Levantei meio zonzo e foi então que percebi a presença de Juvenal sentado numa pedra e com um porrete na mão. Evidentemente ele esperava que eu acordasse. Agradeci:
- Ei, velho, e aí? Tava tomando conta de mim? Obrigado!...
- Obrigado uma porra. Os outros foram começar a busca, mas eu sei que você ainda lembra direitinho como é mulher, e não vai adiantar o fantasma despistar você, por isso você vai me guiar. - Juvenal estava obcecado, e vi que era perigoso. Ele já estava com os olhos duros, e não só os olhos... Aceitei a situação enquanto pensava numa saída. Fui caminhando na frente enquanto ele me seguia com o porrete na mão e um vidrinho de perfume na outra. Perguntei pra que era aquilo.
- O porrete é pra quebrar tua cabeça. E o perfume... É pra botar quando a gente achar o fantasma. Quero estar cheiroso.
E lá fomos. Depois de andar a esmo por horas, tive uma idéia. Demos de cara com um caracol gigante da ilha, com sua carcaça cheia de voltas. Abaixei-me rápido e disse: - É ela!
Juvenal jogou-se no chão, frenético: - Aonde? Aonde? Aonde?
Contendo-me pra não rir, apontei o caracol gigante. Ele já jogando perfume pelo corpo tudo, principalmente no bilau.
- Que é que faço agora? Digo que conheço de algum lugar? Convido pra sair? - disse o homem, fora de si.
- Olha, Juvenal, você está muito no atraso e acho que não tem tempo pra esses rodeios, até porque ela é um fantasma e pode virar fumaça no meio da frase...
- É isso mesmo! Vou mandar ver! Olha só que gostosa! Eu bem que ainda lembrava que mulher é assim, cheia de curvas...
E partiu pra cima do pobre caracol, esquecendo totalmente de mim. Aproveitei pra me mandar, subi um pequeno morro, e curioso, me voltei pra ver o que acontecia entre Juvenal e o caracol. E meus amigos, foi nesse momento que eu vi a cena mais bizarra já protagonizada entre um ser humano e uma inocente e indefesa criatura de Deus.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo V - A Pajelança.

Durante o dia ficaram todos muito inquietos. Mesmo assim não suspeitei de nada. Meu amigo Maúr ficou particularmente melancólico. Um dos nativos me disse que ele naufragara havia muito tempo, numa nau chamada Móvel ou algo parecido, e fora parar ali. Às vezes ficava macambúzio, torturado pelas saudades da família distante. Ele deixara mulher e filha no continente. Eu já o ouvira falando sozinho durante a noite: Oh, Sauzânia... Que saudade meu amor! - E então passava horas olhando o céu. Aproximei-me tentando dar-lhe algum apoio:
- Saudade de casa, velho?
- Saudade de minha filha, minha mulherzinha querida...
Depois descobri que no país de onde ele vinha, as mulheres eram geralmente altas, fortes e de seios fartos. Firmes no falar e no agir, mas tinham o mau costume de bater nos maridos pra espantar o tédio.
- Ela te batia?
- Mas era só quando eu entrava em casa sem limpar os pés. - e tinha uma expressão sonhadora.
- Mas machucava?
- Não houve uma vez em que eu desmaiasse e em que ela não me socorresse depois de não mais que duas horas. Uma santa mulherzinha... Se os três baldes dágua não resolvessem ela via que o negócio era sério e me levava numa emergência. - e coçou uma cicatriz no queixo com um sorriso embevecido.
- Jesus Cristo! E depois? Ela te tratava melhor?
- Era uma santa! Assim que chegávamos do hospital ela ia, ela mesma, até a cozinha. E trazia o rodo já pronto pra eu enxugar a casa. - e derramou uma lágrima de comoção.
Baixou a cabeça, envergonhado, e voltou a sorrir com ar sonhador.
- Credo... - disse eu, e saí de perto.
Na tribo havia um engenheiro florestal, metido a pajé. Durante o dia ele pegou umas folhas que depois distribuiu entre todos nós, e orientou:
- Isso aqui missifio, é folha pra banho purificatório. Toma banho pra purificar corpo que esta noite teremos ritual, pajelança sagrada pra atrair espírito de mulher-fantasma. E essa aqui é sua senha pro sorteio...
- Que sorteio, pajé?
- Como ninguém aqui lembra mais como é mulher mesmo, missifio, pajé vai convencer mulher fantasma a baixar em tronco de árvore sagrada e fazer sexozinho gostoso com membro sorteado da tribo...
- Mas vê aí pro sorteio ser honesto, hein, pajé?!
- Pajé agarante missifio! É um papel para você e um pra mim!
Depois vi que o safado do pajé dava mesmo um papel pra cada um e um pra ele mesmo, que canalha! Mas como eu ainda lembrava como era mulher não me incomodei com o sorteio, porque o tronco da árvore era muito reto, feio, tava muito caído...
À noite nos reunimos em volta da fogueira. O pajé havia pintado o rosto com uma tinta verde meio fosforecente. Perguntei se havia algum motivo especial pra usar aquela cor, e ele explicou que não encontrara a árvore sagrada cuja casca produzia a tinta ritual secreta, por isso usara uma caneta de marcar texto mesmo. Após um silêncio profundo, o pajé ergueu os braços para os céus e orou:
- Mulher fantasma da cintura fina e das coxa grossa.. eu te ordeno... Aparece rapaiz..!
E o coro respondia:
- Apareça minha fia que a tribo é de paz...
O pajé continuava:
- Mulher fantasma da cintura fina e das coxa grossa.. Eu te ordeno... Aparece rapaiz..!
E o coro respondia:
- Apareça fia que eu tô precisado demais...
Ficamos nessa ladainha dos infernos quase duas horas, meus amigos! Finalmente acabamos desistindo. O pajé já todo suado e nada do fantasma baixar. Juvenal estava revoltado:
- Merda! Duas horas aqui pra nada! Esse pajé num tá com nada. Quer saber de uma coisa? Eu vou ali no riacho que é o melhor que eu faço!
E lá se foi o infeliz botar a mão dentro dágua.
Eu havia depositado alguma esperança na pajelança, até porque é uma rima difícil. Mas com o fracasso dela, fui dormir resolvido. No dia seguinte começaria minha busca. Tinha que ter certeza que a mulher fantasma residia realmente no além.

Wednesday, November 10, 2004

Memórias de Um Náufrago: Capítulo IV - Mulher, Mesmo que Seja Fantasma.

Demorei a adormecer, agitado pela visão que tivera. Pela manhã estava cheio de sono e não sabia se devia contar aos outros o acontecido. Será que já estava tendo miragens? Mas fazia apenas uma semana que estava na ilha, e não podia estar tão desesperado assim. Talvez em mais uns quinze dias... Os outros notaram meu comportamento estranho. Juvenal, o que parecia sofrer mais com o esquecimento de como as mulheres eram, cismou comigo, como se uma intuição o alertasse. Juvenal era verdadeiramente obcecado pelo sexo oposto, e não se conformava com o ingrato destino de morrer sem saber a diferença entre Sheila Carvalho e uma samambaia. Eu não sabia realmente o pouco que eu apreciava o belo sexo até conhecer aquele infeliz. Finalmente, enquanto eu roia o pão do desconsolo lembrando da miragem de cabelos negros, fui sem perceber cercado pelos outros. Até Maúr estava entre eles, e com cara de poucos amigos. Juvenal era obviamente o promotor do cerco, e me perguntou nervosamente:
- Você tá diferente, sujeito. Alguma coisa aconteceu. Você viu, não foi?
- Vi o quê, cara? Tá me estranhando?
- Vá, confesse, seu coisa! Diga logo que eu sei que você viu!!!
- Tá bom, tá bom! Eu vi sim! Mas se você se incomoda tanto na próxima vez vá mais pra longe e use uma folha mais comprida pra se limpar, seu porco! Pensa que eu faço questão de ver um sujeito passando o dedo no...
- Não, não, não, não!!! Num é isso não seu filho duma égua!!
- Olhe, me respeite sujeito!
Íamos nos atracar ali mesmo, mas os outros nos contiveram. Juvenal insistiu:
- Diga seu porra, num se faça de sonso não! Você a viu, num foi? Isso é um infeliz mesmo! Passei dois meses trocando o dia pela noite pra conseguir ver, e na vez em que eu cochilo ela aparece e esse infeliz que chegou agora é que tem a sorte!
Vi que não adiantava negar. De fato eu ainda estava muito mais excitado do que a ereção matinal habitual.
- Tudo bem. Eu confesso. Eu vi uma moreninha muito linda ontem à noite parada bem ali onde esse outro bobalhão tá agora! E ela tava com um vestidinho curtinho e olhou pra mim. Acho que rolou até um climazinho...
- Oooohhhhhhhhhhhh!! Fizeram todos de espanto.
- Mas vocês são uns safados! Tinha uma gata aqui e vocês escondendo! Egoístas! Querem só pra vocês é? E a liberdade sexual? E os direitos da mulher? Ela é que escolhe, ela decide, quem pode mais chora menos, põe teu pingulim na mesa que eu ponho o meu...
- Calma, calma, cara, num é isso não!
- Calma é o escambau que eu tô a perigo e só penso nisso... Nisso e em sorvete de mangaba, bem lá pra trás!
- Mas não é uma mulher real não, Macartúrio, é um fantasma! É a mulher fantasma da ilha Fit!
- Oohhh! - fiz eu. - Puxa, ainda bem que ela morreu assim novinha num é? Uma tremenda gata, porra... imagine se tivesse morrido com o corpinho da minha vó...
- Pois é... tão gostosa e morta. De que adianta? Aquela carne que podia ser tão durinha e é só fumaça... eu queria passar por dentro dela mas não desse jeito.
Juvenal tinha um ar de desespero e resignação:
- Ah, minha fantasminha... Eu a vi umas seis ou sete vezes. A última faz cinco meses já. Eu fico às vezes imaginando aquela carnezinha morta... Aqueles peitinhos em decomposição... Aquela mãozinha gelada, gelada... Oh Deus! Por quê? Por quê?!
- Ah, é por isso que você passa horas com a mão dentro dágua antes de ir dormir... E depois põe dentro da calça! E a gente pensava: esse cara não sabe o que quer, deixa a mão congelada e depois vai esquentar no corpo. Cara, você é doente!!!!

Realmente Juvenal era um tarado, o sujeito passava do normal. Depois de um momento eu perguntei. - Mas que estória é essa de fantasma?
Maúr explicou:
- Eles dizem que quando as últimas mulheres estavam indo embora, uma delas caiu do barco e se afogou. O espírito dela vive vagando pela ilha, revoltada, à procura de uma manicure e uma liquidação de lingerie.
- Porra, mas parecia tão real, velho! Muito real... Vocês já pensaram alguma vez em investigar isso? E se o fantasma ainda tiver carne e osso? Se não for fantasma nada? Se ela estiver vivinha?
Os outros se entreolharam, espantados.
- Você acha possível?
Ficamos momentos em silêncio. Depois foram todos saindo, um por um. Eu acabei ficando só. Não insisti na idéia da busca, porque em seguida tive uma outra idéia. Procurar sozinho a mulher fantasma. Àquela altura eu estava louco por um encontro, mesmo que fosse numa mesa branca. Não contei foi com a possibilidade de que aqueles safados estivessem todos pensando a mesma coisa que eu. Foi meu engano.

Memórias de Um Náufrago: Capítulo III - Surge a Mulher Fantasma da Ilha Fit

A rotina da tribo dos engenheiros era estranha. Durante a manhã ficavam diante de computadores, entretidos com o que chamavam de diagramas de circuitos, estranhos desenhos, como joguinhos de armar, ligando bonequinhos de diferentes formatos. Passavam horas pesquisando sobre caixinhas cheias de perninhas, como estranhas aranhas. Num dado momento reuniam-se e discutiam seriamente sobre onde caçar a refeição do meio-dia, e após muita confusão iam sempre para os mesmos lugares, o que era muito irritante. Todos carregavam telefones celulares que nunca tocavam. Pareciam extremamente inabilidosos em diálogos triviais, mas ficavam muito à vontade ao discutir sobre coisas das ciências exatas. À noite os engenheiros se reuniam em torno da fogueira e contavam lendas sobre seres de seios salientes, que eles não conheciam, e que vinham a ser as mulheres, que eu não entendo mas conheço relativamente bem. Dizia a lenda que um dia a ilha também fora habitada por fêmeas, mas que elas, as fêmeas, não apreciavam a falta de graça dos engenheiros, e partiram de maneira não esclarecida, de modo que não restou nenhuma, ou quase nenhuma... Aí todos se calavam e ficavam muito sombrios. Um a um iam dormir, e tinham um sono muito agitado, pensando nas criaturas de curvas generosas e seios arredondados.
Numa dessas ocasiões fiquei a sós com Maúr, o outro estranho da ilha, e lhe perguntei sobre o assunto tabu.
- Meu irmão, não tem mulher nesta merda? Nem pagando? Eu tenho um dinheirinho aqui no bolso que já secou...
- Rapaz, pelo jeito não. Fugiram todas, porque os engenheiros transam mal, não sabem conversar e ainda queriam rachar as contas.
- Ohhh...
- É verdade, difícil de acreditar mesmo. E não era meio a meio não. Proporcional ao que consumiu, e todos andam com calculadoras científicas. Teve um deles que fez um programa pra calculadora HP pra calcular o valor relativo entre consumo de cerveja e de refrigerante...
- Porra, essa tribo vai se extinguir. - disse eu, desanimado.
- Vai, a não ser que eles engravidem as folhas, a areia, os lençóis... Porque nem uma cabritinha tem por aqui, infelizmente. Eu temo que fiquemos aqui pra sempre. Dizem que a ilha tem uma maldição, que faz você começar a esquecer como as mulheres são...
- Não!!!! Será verdade? Será que no final não vamos nem poder fazer justiça com nossas mãos? Ou vamos fazer pensando em tijolos de seis furos e julgando que são a nossa cunhada, ou a vizinha da frente? - fiquei transtornado.
- Acho que sim, porque um dia desses um dos engenheiros começou a descrever Vera Fischer, e do meio pro fim ele estava a falar de um Maverick 74, sem nem perceber. E ainda disse que a mulher tinha quatro portas.
- Meu Deus!!! Então é verdade! Daqui a uns 10 anos vamos estar nos masturbando pras plantas, pros camelos, pros...
- Caminhões basculantes.
- Jesus Cristo! Isto é pior que a morte...
Fui dormir abalado, e me afastei um pouco do círculo formado pelos outros. Não entendia porque eles procuravam dormir tão próximos, e já estava com uma certa paranóia de boiolice generalizada, embora nenhum deles desse sinal disso na verdade. Adormeci com dificuldade, pensando bastante em formas femininas para retardar o efeito da maldição do esquecimento, mas comprovei que a maldição era real, porque houve dois momentos em que me vi pensando em bicicletas e geladeiras.
Então aconteceu: De dentro do sono ouvi um ruído, e abri os olhos. Qual não foi meu espanto quando vi à minha frente uma mulher!!!!! Era morena clara e de longos cabelos negros, o que muito me agradou. Tinha seios de belo tamanho e formato, e usava um curto vestido. Seu corpo era bastante agradável, e àquela altura do campeonato ela me pareceu uma deusa. Por um momento nos encaramos, até que cometi um erro fatal; tentei levantar. Ela assustou-se, e em questão de segundo afastou-se do fogo e desapareceu na escuridão. Só então acordei totalmente. Teria sido uma visão? Talvez. Eu tinha visto pela primeira vez a misteriosa mulher fantasma da ilha Fit.


Memórias de Um Náufrago: Capítulo II - A Ilha Fit

Caminhei durante muito tempo sem encontrar viva alma. O sol ia alto e a fome começava a incomodar, quando enxerguei bem distante o que me pareceu um aparato humano. Não mais que uma pequena mancha ainda, mas acreditei ter visto uma tosca construção. Corri para lá entre ansioso e assustado. Era um sinal inequívoco da presença de pessoas, e eu esperava que fossem amistosas. Enfim cheguei a um pequeno barraco construído com troncos e palha. Fora feito apenas para guardar redes e alguns apetrechos que estavam arrumados de modo que denotava espírito de organização. Havia ainda uma pequena vereda que seguia entre os coqueiros, afastando-se da praia. Tomei aquele caminho, esquecendo qualquer temor que tivesse antes. Gente que colocava rótulos com nomes nas coisas não devia ser perigosa.
Assim encontrei a Tribo dos Engenheiros Perdidos. Viviam em um grupo de pequenas habitações construídas numa clareira, sobre uma pequena elevação, e deviam ser não mais que umas três ou quatro dezenas de almas. Segundo a lenda, eram todos descendentes dos tripulantes e passageiros de um transatlântico que naufragara havia muitos anos, durante um cruzeiro oferecido por uma grande empresa aos seus engenheiros. Eles me esclareceram que estávamos de fato numa ilha, e por infelicidade afastados das rotas marítimas e aéreas. Além disso, a violência do mar e do vento era terrível, e tentar partir dali, quase impossível. A implacável maré arrastava qualquer coisa de volta para a praia, e o homem mais forte ficaria exausto em minutos tentando se afastar. Os primeiros momentos foram muito tensos. Vi-me cercado por vários homens com ar de desvario e longa privação, e temi pela minha integridade anal. Mas os engenheiros eram um povo pacífico. De tempos em tempos surgiam náufragos como eu, que eram simpática e pacificamente integrados ao grupo. Além de mim havia um outro que chegara não me recordo quanto tempo antes, e chamava-se Maúr. Eles passavam os dias entretidos com suas pequenas ocupações. Para a subsistência gastavam pouco tempo, mas estavam sempre atarefados montando e desmontando as próprias engenhocas e inventando parafernálias que consideravam úteis. Tinham todos um ar estranho e distraído, estavam sempre divagando, riam muito entre si e uns dos outros, e gostavam de contar e rir das próprias piadas. Eram organizados e metódicos, e para dizer a verdade levavam uma existência desgraçadamente monótona, mas apaixonavam-se por suas quinquilharias de maneira arrebatadora. Pareciam ter um incrível senso prático para tratar de coisas específicas, mas sem nenhum sentido de adequação à vida como todo. Eram arrojados sem serem empreendedores. Bons executores do que quer que fosse, mas planejadores, eu não diria medíocres, mas nulos. Porém um detalhe me chocava e surpreendia mais que tudo naquele lugar, chamado por eles de Ilha Fit. E esse detalhe era que na Ilha Fit não havia mulheres. Todos, eu disse todos, todos os membros da tribo eram homens adultos. Ou seja, efetivamente a ilha só tinha membros. Como se explicava aquilo? Por que não havia mulheres na Ilha Fit?

A Mulher Fantasma da Ilha Fit, ou Memórias de Um Náufrago: Capítulo I - O Naufrágio

Capítulo I - O Naufrágio

Meu nome é Macartúrio, e a estória que vocês talvez lerão (se quiserem continuar) passou-se realmente na minha vida, num passado que se tornou remoto, malgrado o fato de que estou envelhecendo. Caso creiam nela, estará bem, porque sei que não é algo em que se crê facilmente. Se não acreditarem, porém, a mim pouco importa. Já contei esta estória muitas vezes e eu mesmo vou acreditando cada vez menos nela à medida que me passam os anos. Escrevo-a agora porque um certo amigo meu de quem ainda ouvirão falar, Juvenal, importuna-me sempre para que relate esses fatos. O canalha não o faz ele mesmo por preguiça, creio, mas ao mesmo tempo que não escreve por si próprio, cada vez mais me importuna para que eu registre como nos conhecemos. Diz que quando estivermos totalmente esclerosados esta memória será nossa distração nos ócios de cadeira de rodas dos asilos, e assim mataremos de inveja ou espanto os outros velhos, sobrando-nos mais tempo e atenção das enfermeiras. Pode ser que ele esteja certo, como eventualmente acontece. Assim aqui está. O que eu diminuí foi para que não me tivessem mais ainda por mentiroso. Não sou um romancista e não tenho paciência nem intenção de me estender nesta narrativa. O linguajar não é o mais adequado a um baile de salão, pelo menos um dos de antigamente, mas é o linguajar dos personagens e lhe serei fiel. Tampouco sou moralista, ensaísta ou filósofo, e com esta introdução já gastei todos os meus recursos estilísticos. Em bom português: Vamos em frente com esta merda.

Quando eu era jovem nunca tive convicções a respeito de nada. Fui sempre levado pelas circunstâncias, e jamais me ocupei das questões da existência. Apenas vivia e achava que fazia muito. Certa época decidi que queria viajar, conhecer novos lugares, e arrumei emprego como ajudante num pequeno cargueiro. Assim saí de Recife, Pernambuco, Brasil, cidade portuária e marinha, minha amada (um amor cheio de ódios, incompreensões, ciúmes e traições) e sofrida terra natal, e durante meses viajei pela costa brasileira. Passado um tempo as viagens se estenderam até a América Central, e eu gostava daquela vida, conhecendo portos, pessoas, cidades, mulheres. Estávamos voltando de uma dessas idas ao Caribe, quando fomos colhidos por uma tempestade. Seguíamos rotas extravagantes e evitávamos sempre autoridades policiais, pois transportávamos mercadorias de um lado para o outro para algumas pessoas que tinham uma interpretação muito própria das leis do comércio internacional. Quando a procela nos atingiu não sei bem onde estávamos, e talvez nem o capitão soubesse. Durante um dia e uma noite balançamos ao sabor das ondas mais violentas que eu já vira. Lembro como se ainda estivesse de pé no convés da maior muralha de água que vocês poderiam imaginar erguendo-se na escuridão, e literalmente pondo o barco de cabeça para baixo. Mergulhei desesperado, agarrado apenas a uma bóia, e estive quase a me afogar. Fiquei assim durante horas, até que perdi os sentidos, congelado e aterrorizado.

Quando acordei havia à minha frente uma praia, e o dia clareava. Ainda chovia torrencialmente, mas a violência da tempestade cedia. O mar me levava na direção do que era aparentemente uma ilha, e em algumas horas eu estava chegando a ela. Caminhei pela areia, encharcado e exausto, e adormeci sobre umas palhas de coqueiro caídas, indiferente à chuva que me fustigava.
Quando acordei meu corpo estava quase enxuto, e um sol tropical me ardia nas costas. Levantei-me, zonzo, e fui lentamente para a beira-mar. Via-se bem longe no horizonte, sem sinal de qualquer movimentação humana. Apenas gaivotas e o mar ainda revolto, violento. Nenhum navio, nenhum destroço, nenhum outro náufrago, nada. Para um lado e para outro se estendia uma longa faixa de praia branca totalmente deserta. Estaria eu só? Estaria no continente? Numa ilha? Escolhi uma direção ao acaso e comecei a caminhar, em busca de auxílio para o meu infortúnio, mas ainda contente de ter sobrevivido ao pesadelo. Eu não pensava que tivesse saído do pesadelo para iniciar um sonho enlouquecido.

Qualquer começo já é um começo.

Não estou certo de que este seja o formato correto. Isso veremos. Minha intenção é progressivamente preencher este espaço com a minha humilde e irregular produção literária. Alguma poesia, alguns contos, algumas crônicas que vou produzindo e que depois ficam adormecidas, à espera de leitores. Lembro de Fernando Pessoa ("Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, eles lá terão a sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, porque as raízes podem estar debaixo da terra, mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.") e me animo a trazer à luz estas minhas pobres flores, nuas. Se beleza houver nelas, que esteja nos olhos e mentes de quem as contemplar. Se não for esse o caso, perdoem-me e sejam benevolentes. Pretendo trazer um texto novo pelo menos a cada semana. Iniciarei com três contos. O primeiro é uma brincadeira entre amigos que escrevi há uns dois anos, sem nenhuma pretensão além de fazer uma piada em capítulos. Chama-se "A Mulher Fantasma da Ilha Fit", ou "Memórias do Exílio". Vocês verão que eu tendo tanto ao lirismo como ao sarcasmo. Tanto à poesia como ao deboche. E em tudo isso estamos carregados de loucura, não é? Espero que vocês se divirtam. Naufragamos amanhã.