Memórias de Um Náufrago: Capítulo X - A Suspeita.
Foi assim que iniciou-se uma relação de amor e ódio, não necessariamente nessa ordem. Fantasma ou não, aquela mulher me tratava como se eu fosse uma coisa, meus amigos, um objeto. Ela simplesmente me catava, me usava e me despachava. Uma maravilha! E se eu tomasse a iniciativa de procurá-la não era certo que seria bem recebido, e a volta da caverna era difícil. Às vezes o lugar estava simplesmente vazio, como se ninguém o habitasse nem o houvesse habitado nunca. Eu voltava para a aldeia então, com calafrios de terror. Às vezes ela me dizia que não estava a fim, alegava dor de cabeça, me acusava de não vê-la como pessoa! Mas o mais humilhante era quando eu queria discutir a relação, e ela dizia: "Quer discutir a relação? Você é meio gay, num é não?" Ou pior ainda: "Que relação? Hoje não fizemos nada ainda." Era uma bandida. Eu vivia com um terror constante de falhar, porque ela me punia por qualquer frustração que sentisse, e o pior é que com o tempo comecei a encarar isso como parte do nosso ritual particular...
Passaram-se, sei lá, uns seis meses assim. A vida era boa. Os nativos tinham se convencido de que a mulher misteriosa não era de carne e osso, e como a falta de mulheres não desenvolvia neles nenhum gosto homossexual, dedicavam-se aos mais variados passatempos para entreter a falta de sexo. Nem todos se masturbavam, porque tinham medo de ter orgasmo pensando em ferros de passar. Às vezes eles se reuniam à noite, e eu passava horas descrevendo para o grupo a anatomia feminina. Os infelizes ficavam tão agradecidos que me tornei bastante prestigiado. Fui imprudente, porém, porque duas pessoas notaram que eu não sucumbia à maldição do esquecimento, e desconfiaram da razão. Eram eles o pajé e Juvenal. Para despistar às vezes eu descrevia minha antiga vizinha de baixo, que era lésbica, mais bigoduda do que eu, e sargento da Polícia Militar, ou variava mais ainda, e mais de uma vez fiz a tribo inteira se masturbar pensando em vacas holandesas, geladeiras frost free e torres de alta tensão, enganados. Meu amigo Maúr, lamentavelmente, também sucumbira à maldição, e era triste vê-lo lembrar de sua saudosa esposa e descrevê-la como uma velha Parati que ele tinha, confundido. "Ah quando ela passava aqueles limpadores de pára-brisa lindos na minha cara...!" E desatava a chorar. Era triste. Eu não deixava de imaginar como deviam ser os tais limpadores.
Juvenal esquecera como as mulheres eram mas não se rendia. Passava tanto tempo com a mão na água gelada do riacho que já andava tremendo-se todo, e seus lábios estavam sempre roxos. Por causa da água fria ele já escapara de uma gangrena no pingulim, mas insistia. O pajé ficara obcecado por inventar uma cura para a maldição, mas o infeliz só conseguia fazer todo mundo sofrer dores de barriga coletivas. Certa feita, fez uma beberagem tão miserável que os pelos pubianos de todos caíram, e a partir desse dia passaram a se chamar Tribo dos Bilaus Carecas. O fracasso o deixava maluco, mas o homem não desistia. Um dia eu estava descansando, esperando a hora de visitar minha torturadora, quando os dois aproximaram-se de mim, ressabiados. Esperei, sonso, e o pajé falou:
- E aí, Missifio, como lhe vai?
- Assim, assim. Em casa todos bons?
- Vamos levando com fé.
- Diga que mandei lembrança.
- Agradecido, conhecido. - e ficamos todos calados, olhando as unhas das mãos. O pajé continuou:
- Missifio anda pálido, com umas olheiras de dar medo. Quer um chazinho? Talvez Missifio esteja com verme.
- Ora, que gentileza. Outro dia tomamos.
- Apareça!
- Levo a família?
- Ora, fique à vontade! Fazemos um churrasco!
- Eu levo a cerveja!
Juvenal teve um gesto contido de impaciência. Pajé prosseguiu:
- Missifio mora na ilha tem o quê? Seis, sete meses?
- Por aí. Pra que contar?
- Pajé nota que Missifio ainda lembra de mulher apesar da maldição. Como pode?
- Aqui entre nós, pra não frustrar os outros, eu uso muito a imaginação. Invento!
- Mas Missifio é bem convincente...
- Brigado!
- Ocê merece!
Aí Juvenal estourou. Pulou em cima de mim, feito louco!
- Deixe de enrolar, seu safado! Você a achou, não foi? Confesse! Confesse! Confesse!
O homem estava histérico! Começou a me estrangular, e eu mal respirava. O pajé o tirou de cima de mim e o arrastou, mas na distância eu ainda ouvia seus gritos. "Egoísta! Egoísta! Quer só pra você, é? Eu nem tenho mais digitais, tô com as mãos cheias de calos! Tô quase com gangrena! Você tem que dividir! Você tem que dividir..." Fiquei recuperando o fôlego, mas não levei o descontrole de Juvenal a sério. Foi um grande erro, e naquela noite, quando saí para meu encontro secreto, vultos me seguiram na escuridão.
Passaram-se, sei lá, uns seis meses assim. A vida era boa. Os nativos tinham se convencido de que a mulher misteriosa não era de carne e osso, e como a falta de mulheres não desenvolvia neles nenhum gosto homossexual, dedicavam-se aos mais variados passatempos para entreter a falta de sexo. Nem todos se masturbavam, porque tinham medo de ter orgasmo pensando em ferros de passar. Às vezes eles se reuniam à noite, e eu passava horas descrevendo para o grupo a anatomia feminina. Os infelizes ficavam tão agradecidos que me tornei bastante prestigiado. Fui imprudente, porém, porque duas pessoas notaram que eu não sucumbia à maldição do esquecimento, e desconfiaram da razão. Eram eles o pajé e Juvenal. Para despistar às vezes eu descrevia minha antiga vizinha de baixo, que era lésbica, mais bigoduda do que eu, e sargento da Polícia Militar, ou variava mais ainda, e mais de uma vez fiz a tribo inteira se masturbar pensando em vacas holandesas, geladeiras frost free e torres de alta tensão, enganados. Meu amigo Maúr, lamentavelmente, também sucumbira à maldição, e era triste vê-lo lembrar de sua saudosa esposa e descrevê-la como uma velha Parati que ele tinha, confundido. "Ah quando ela passava aqueles limpadores de pára-brisa lindos na minha cara...!" E desatava a chorar. Era triste. Eu não deixava de imaginar como deviam ser os tais limpadores.
Juvenal esquecera como as mulheres eram mas não se rendia. Passava tanto tempo com a mão na água gelada do riacho que já andava tremendo-se todo, e seus lábios estavam sempre roxos. Por causa da água fria ele já escapara de uma gangrena no pingulim, mas insistia. O pajé ficara obcecado por inventar uma cura para a maldição, mas o infeliz só conseguia fazer todo mundo sofrer dores de barriga coletivas. Certa feita, fez uma beberagem tão miserável que os pelos pubianos de todos caíram, e a partir desse dia passaram a se chamar Tribo dos Bilaus Carecas. O fracasso o deixava maluco, mas o homem não desistia. Um dia eu estava descansando, esperando a hora de visitar minha torturadora, quando os dois aproximaram-se de mim, ressabiados. Esperei, sonso, e o pajé falou:
- E aí, Missifio, como lhe vai?
- Assim, assim. Em casa todos bons?
- Vamos levando com fé.
- Diga que mandei lembrança.
- Agradecido, conhecido. - e ficamos todos calados, olhando as unhas das mãos. O pajé continuou:
- Missifio anda pálido, com umas olheiras de dar medo. Quer um chazinho? Talvez Missifio esteja com verme.
- Ora, que gentileza. Outro dia tomamos.
- Apareça!
- Levo a família?
- Ora, fique à vontade! Fazemos um churrasco!
- Eu levo a cerveja!
Juvenal teve um gesto contido de impaciência. Pajé prosseguiu:
- Missifio mora na ilha tem o quê? Seis, sete meses?
- Por aí. Pra que contar?
- Pajé nota que Missifio ainda lembra de mulher apesar da maldição. Como pode?
- Aqui entre nós, pra não frustrar os outros, eu uso muito a imaginação. Invento!
- Mas Missifio é bem convincente...
- Brigado!
- Ocê merece!
Aí Juvenal estourou. Pulou em cima de mim, feito louco!
- Deixe de enrolar, seu safado! Você a achou, não foi? Confesse! Confesse! Confesse!
O homem estava histérico! Começou a me estrangular, e eu mal respirava. O pajé o tirou de cima de mim e o arrastou, mas na distância eu ainda ouvia seus gritos. "Egoísta! Egoísta! Quer só pra você, é? Eu nem tenho mais digitais, tô com as mãos cheias de calos! Tô quase com gangrena! Você tem que dividir! Você tem que dividir..." Fiquei recuperando o fôlego, mas não levei o descontrole de Juvenal a sério. Foi um grande erro, e naquela noite, quando saí para meu encontro secreto, vultos me seguiram na escuridão.

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